domingo, 1 de fevereiro de 2009

Voa voa, grão de sésamo


Para Elaine Siderlí














Sim. Foi agora que me chegou o fastio, pelos inúmeros flertes. Pelo calor e pelo frio. Não me interessa mais a voz da musa, nem sua canção lusco-fusca. Já a visão não me ofusca. Veio sem fim e sem começo. E, agora, o que sinto é só vergonha em mim mesmo. Quedo-me e repouso nesse labirinto. Importa-me achar o bom amigo. Importa-me descobrir o quanto disso é fogo fátuo. O que sobrar é fato. Cansei-me dos que refreiam os seus melhores passos. E das musas dos espaços. Fechados ou abertos. Lancei um buquê de flores miúdas aos céus. E fiz o ato em nome de Buda, cantando assim: “Não, não sou poeta. Sou o dançarino que atravessa o labirinto, segurando espelho, e não mais sorrindo”. Não, não sou comerciante de jóias. Não atravessei terra árida por nada, só a costumeira confusão dos homens. Sim, agrada-me estender-lhes a mão. Aos que me pedem flor e coragem. Não dinheiro, ou palavras fáceis. Sou o dançarino no labirinto, não um mercenário, atravessador, bandoleiro. Sou só o que toca o bandoneón, quando os outros dormem, de cócoras. De costas pro sol. Não tenho flauta, nem tenho fome de outras notas. Gosto de permanecer só. E há o lustre balançando na entrada de minha estrada longa. E foi só agora, há pouco, que me chegou o fastio dos ideais da hora outra. Era mais espessa, sonsa, tosca, a hora da canção lusco-fusca. Existem duas liberdade novas: a de dançar e não cantar canções velhas. Aquelas tolas de outrora. Quebrou-se a flauta quando soprou funda rajada. Fúnebre. Quando as palavras de cada um fizeram-se tornados. Giraram em falso. Tornaram-se grão de sésamo. Falta de suporte. Tombo no vazio. Eu sou o dançarino das flores miúdas jogadas aos céus. E só me interessam agora os hinos. E os passos da ancestral bailarina: a musa que não abriu a boca. Nem caiu. Com precisos ornamentos, usou brando colar e guirlanda, pisando chãos bárbaros. Soavam canções da Irlanda sem soar qualquer som. Só na sombra de seus movimentos. A ela canto, quando minha flor a Buda também jogo e lanço. Nesse momento, também sou cantor. Momento raro, quando escapo das dezoito servidões de ser mundano. Ou avaro. Depois, as enumero. O labirinto é extenso, e se não prossigo - no essencial do canto e do passo -, ao fim, eu nunca chego. Nem colho a derradeira flor de ser vitorioso. Em terra sem seta, sem placa, sem valor. Ouvi dizer, ali e além, de um lótus branco que nunca vi. Dele, talvez, pudesse me dizer alguém. Mas sigo a lâmpada que eu mesmo conheci, ali atrás, no primeiro vão da estrada. Na porta inaugural. A certa altura, sim, vi vulto. Algum de ardente inferno, clamando ter sede. E eu lhe dei um guizo, enquanto ajeitava os mecanismos de meu próprio cérebro, pra melhor decodificar pedidos. Ouvir júbilo, lamento ou grito. Distinguindo cada um de cada outro. Voa, voa, grão de sésamo. Voa, voa cada palavra ao vento. Os vultos, agora, fazem silêncio. Estão de luto. São raras as orações puras. São poucas as tochas acesas nos ramos das árvores altas. São mínimas as novas palavras, ou velhas em novas contas enfileiradas. Quase tudo é fogo fátuo e musa morta. São muitas as sementes queimadas. E as liberdades extremas costumam ser falsas, grotescas, trôpegas. Como o andar das emas. Nenhuma riqueza é perfeita. E, no leite, costuma haver nata. Na vida, tudo é nada. Fora o que se deixa como aroma, dependendo do jeito que se passa. Às vezes, o tempo anda ao contrário. Às vezes, larga o leme do barco, o timoneiro. Às vezes, queremos dividir méritos com os que já se foram: quatro, oito, quinhentos. Então, rezamos. Dobramos os joelhos, nesse labirinto, segurando espelho. Voa, voa, grão de sésamo! Voa ,voa, cada palavra ao vento! Importa-me achar o bom amigo. Que me recite o Sutra ao pé do ouvido. E que, no método, seja assíduo. Voa voa, grão de sésamo, até o fim dos tempos! O que se acumula, no fim, se dispersa. Há sete destruições pelo fogo, vinte e sete pela água, e oitocentas pelas más palavras. Mesmo o universo se desintegra. E se acrisola, num palácio, em Dimensão Quarta. A morte é certa. E não tarda. São ocos os troncos das bananeiras, como são os corpos longos das flautas. De metal ou madeira. E demora o vento o tempo de levar - pra ali pra além pra fora - o grão de sésamo. Voa voa! A flecha voa sem a menor pausa e, por fim, descansa. A torrente desce a encosta. Voa voa, vento, e leva leve a minha glosa! Que seja, para o ouvido, precioso brinco ou mero ornamento... Ouça o que lhe digo: quem mora na terceira margem se chama condenado! Até que a pele se lhe despregue dos ossos... O que habita a margem terceira ouve a razão do vento. Vê, e só se comove com as outras duas. Não a sua, a do meio, porque feita à sua imagem. Voa voa, grão de sésamo, acompanhando a minha loa! Caminho sobre o chão, ou sobre o espelho, segundo o dia, a hora, a estação. Mas guardo - de memória - a voz da tocha que me cantou um dia: “segue e vai embora!”. Seguir pra onde?! Agora, sobre tudo a sombra desce. Ficam as dobras. Meu olho não mais se incomoda com as mudanças. Ele é íntimo do espelho. Reconhece, longe longe, o grão que voa, e adivinha sua origem e pouso. Pouso e origem. Linhas negras demarcam a construção do labirinto. Engenho feito por nós mesmos, inábeis arquitetos: casa de urros, prantos e bebês famintos. Voa voa, grão de sésamo, até o lugar onde tudo é findo. Onde não há doença ou roubo. Eu sigo o meu passeio mais lento, mais longo, pisando em ovos, mirando-me no espelho. Para conhecer meus olhos. Procurando neles atos e átomos que se perderam. E os Atos dos Apóstolos. As ações e seus frutos. Um grão, que seja, de efeito positivo. Ou causa. O grão de mérito. Sei que causa estrondo o trovão. Na canção, causa temor a pausa. E todo passo é preciso. E precioso, quando se sabe o ritmo. Todo ele é rito. Ritual de auspicioso voto. Potencial de encontro com o grão de sésamo, lá no fim, caído...















Marcelo Novaes



***Marcelo Novaes é poeta, escritor, psicanlista, possuí um blog muitissímo interessente e realizará em março uma Oficina Literária em São Paulo, passeiem pelo "Lugar que importa" e verifiquem vocês mesmos... http://olugarqueimporta.blogspot.com/

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Entrelinhas que me sugere




As entre-linhas que me sugere é mera especulação.As entre-linhas que me sugere não passa de uma constatação de sua visão(visão que mira a outra margem do rio, sem jamais ter aprendido a nadar e que se recusa a entrar no bote salva-vidas).As entre-linhas que me sugere estão entre as linhas demarcadas de sua imaginação e nada se adequam a realidade de dizer um simples não.As entrelinhas se fazem por si só, não são sugeridas, são substâncias que povoam o entendimento, a vivência e a experiência única de cada qual, e pelas entrelinhas é bom navegar mas nas entre-linhas apenas há imaginação.





Elaine Siderlí.

Estações



Quisera eu estar agora,com o vestido ( de cetim ) azul lua que me destes naquele verão.

Quisera eu possuir o dom, de entregar-te a primavera que habita meu coração.

Quisera eu apresentar-me a ti, envolta nas brumas do outono povoando sua imaginação.

Quisera eu provar-te que o inverno, faz a lua tornar-se azul e que é essa a imensidão.



E por tanto querer, não percebi as estações passarem.
Não percebi! Algo passou (você passou).





Elaine Siderlí.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sampa!

Ah..Sampa!
Sampa, querida que me coloca em fobia
diante de um trânsito noturno e sem guia...
Sampa, que tanto amo,
por onde encontrei enganos, dissabores
mas também encontrei vida, gente inteligente, amigos confiáveis...
Sampa, que me faz rir e chorar que
ao passar pela Av.Paulista sinto a grandeza da cidade,
bem como ao viajar pelo subsolo no metro que
como o sangue sustenta o corpo assim sustenta a megalópole!
Ah, Sampa!
Onde as marginais (Tietê e Pinheiros) são teus membros
a linda Paulista tua cabeça e
todas as etnias que por aí passam
também a tornam a terceira maior cidade do mundo!
Ah, Sampa...



Elaine Siderlí.


25 de janeiro - aniversário da cidade de São Paulo
(resido em Jundiaí que fica há aproximadamente 60 km de Sampa, mas meu coração por essa cidade linda canta!)

sábado, 24 de janeiro de 2009

Raízes




Não fixar raízes
é uma boa maneira de sair
sempre antes que a aula acabe.

Não fixar raízes
é uma boa desculpa
para permitir-se ao erro.

Não fixar raízes
é uma boa forma de fechar-se
ao aprendizado da humanidade.

PORÉM...

Não fixar raízes
liberta
o ser humano do comodismo.

Não fixar raízes
expande
a luz do desconhecido.

Não fixar raízes
estabelece
uma conduta de vivência.

Analisar com o coração,
Discernir com a alma,
Vivenciar com o ser...

Em que ciclo de fixação de raízes pode-se estar no momento?

A copa das árvores cresce para o céu,
e as raízes para o interior da terra.


Elaine Siderlí.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Percorro

O caminho mais
suave
que percorro
fica entre
seu queixo
(de meretriz)
e seu nariz
(de palhaço).


Elaine Siderlí.

sábado, 3 de janeiro de 2009

I apenas I

Onde tudo era eu,
me perdi,
te invadi,
e descobri,
a doce lágrima em que caí
ao te ver
parti,
sucumbi.


Elaine Siderlí.